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O espetáculo “Bicharada: na saga do som” estreia dias 08 e 09 de maio no Portal de Artes MeVer

O espetáculo narra a saga de um tracajá em busca de suas canções e das vozes de seus ancestrais. Poderá ser acessado no link https://www.mever.com.br/. A transmissão será feita às 15h Manaus, 16h Brasília, 20h em Portugal.    

O espetáculo “Bicharada: na saga do som” reflete sobre a procura de uma identidade e sobre o quanto essa identidade está na música de um povo.  Para o diretor artístico do espetáculo, Guto Martins, nesta ficção, o povo quelônio revela o quanto esta canção vai de encontro a vários movimentos que metaforizam e refletem o que aconteceu com os povos originários da terra.

 “Quando penso nos parentes Krenak, em Minas Gerais, nas falas de uma das nossas referências na escrita deste projeto, o Aílton Krenak, que fala sobre o vale do rio Doce, e sobre as bacias, as florestas, a imensidão, essas proporções maravilhosas das árvores onde residiam e o quanto aquele povo Krenak, se tornou exilado da floresta do rio Doce, penso que um exilado leva consigo ‘a casa’, esta morada dentro de si”, afirma e acrescenta:  

“O tracajá, na peça, revela sua própria identidade dentro do seu casco, na vibração que o casco emite. E ainda assim, é nesta espécie de constante exílio e emigração, na busca de um lugar, na busca da sua canção, que o tracajá encontra a resposta num processo de escuta muito íntima”.

Guto Martins adverte: “o espetáculo fala sobre a necessidade, o grito de um cuidado para não repetirmos mais movimentos históricos de devastação da mata, dos biomas, da fauna e da flora. Chama a atenção para a beleza, o poder que a ancestralidade e os animais e, nós enquanto seres animais, temos ao nos escutar, ao ir de encontro ao nosso próprio som”.

O espetáculo é um mix de linguagens que vão desde do teatro radiofônico até o uso de mídias visuais para diversas plataformas. A produtora executiva da peça, Jackeline Monteiro, explica: há um pool de artistas trabalhando em diferentes linguagens, com autonomia e experiência. A equipe é composta por músicos, artistas, educadores, dançarinos, enfim. O processo de criação envolve a interação entre diferentes linguagens artísticas e uma profunda troca de conhecimentos”.           

Integra o projeto “Bicharada: na saga do som”, o núcleo de Arte&Comunidade da Escola Superior de Artes (ESAT/UEA). A coordenadora geral do Arte&Comunidade, Amanda Ayres, atriz que atua na voz da tracajazinha Araci, faz um convite à participação do público na Roda de Conversa, no dia 09, após a sessão do espetáculo.

“A roda versará sobre o processo de criação do espetáculo e, se cuidem, que a bicharada está solta na floresta”, alerta Amanda Ayres, lembrando que a roda será um exercício livre de ecofilosofia do mundo animal. A atriz Vanessa Bordim, integrante do Núcleo atua na composição do espetáculo e afirma que esta será uma experiência poética. “Participem. O espetáculo nos leva realmente a integrar o imaginário do mundo da natureza animal”.

Trilha musical: processo de criação coletiva

O diretor musical do espetáculo, Matheus Uhsaga não nega toda uma influência hip hop no espetáculo, mas afirma que os samples trazem recortes de melodias de músicas antigas, indianas, indígenas, tangos, entre outros. “Trabalhamos os samples em pequenos trechos, loopings, que trazem diferentes tons para as melodias, modificando-as. Com base em melodias antigas, construímos algo diferente. As influências não são só o rap ou o hip hop”, afirma.  

O universo do hip hop faz parte da vida de Matheus Uhsaga desde os 13 anos de idade. “Hoje, tenho trinta anos e o rap sempre esteve comigo na minha caminhada”, diz e acrescenta: “sempre gostei do gênero e ele me ensinou muita coisa, me abriu a visão para outros gêneros musicais. Através do hip hop, eu conheci uma porção de sons ao redor do mundo e inclusive do Brasil”.

Para ele, muitos sons raízes foram incorporados à trilha, mas quanto à questão do rap ser ou não ser a opção de linguagem musical do espetáculo, o músico declara:  “tudo que eu faço tem o rap, seja uma música infantil, experimental, ou qualquer outro gênero, tem influência do rap. Pode não estar explícita mas, está implícita na sua forma: a rima”.

A trilha sonora do espetáculo é apresentada em forma de rima. “A influência do rap no espetáculo é sobretudo, a rima. Sou um músico beatmaker, toco diversos instrumentos, como: violão, flauta, percussão, teclado, entre outros, e utilizo samples, na pegada do DJ, que faz a batida do rap”, diz Matheus Uhsaga.  

As composições também foram criadas coletivamente. O processo de criação da trilha, segundo Uhsaga, partiu de referências trazidas, através da pesquisa conjunta sobre as identidades dos personagens. “Organizei as ideias e escrevi as letras e o resultado foi surpreendente”, revela Matheus Uhsaga, que ressalta: “da embolada ao tango, do rap às músicas tribais, trabalhamos na fusão dos ritmos, sem comprometer a essência da atmosfera em que acontece o espetáculo, a floresta”.

 A trilha integra a música eletrônica. “Através de variações de timbres, que são utilizados junto com os instrumentos orgânicos, há sons de caixa, bumbo, pratos eletrônicos, sem demasia, mas de uma forma que deu uma incorporada na estética sonora”, conclui Matheus Uhsaga.   

O teatro radiofônico

O campo de trabalho, para Guto Martins, é sobretudo o teatro radiofônico. “O teatro radiofônico é uma frente que existe a quase um século. E, neste século, as mudanças trouxeram imensas transformações, sobre a esfera e o poder do rádio, enquanto meio de politização, de comunicação entre os povos, comunidades, etc. Essa conexão pela vibração e a frequência do rádio possibilitam explorar este meio. Entretanto, a partir da interface da internet, estamos conectando diversas plataformas usando o google meet como plataforma de trabalho para os ensaios, desde a criação”, afirma e acrescenta:

“A escrita dramatúrgica da peça passou pela construção deste banco de referências, encaixes nesta espécie de quebra-cabeças que as citações trouxeram. De repente, vimos que as co-relações dessas figuras como: Davi Kopenawa, Platão, Guimarães Rosa, David Atemburroughs e, muitos outros, se encaixavam a algumas personagens”.

Para Guto Martins, a técnica utilizada na apropriação do texto, na dimensão do teatro radiofônico tangencia lugares, sem dúvida, próximos da dublagem, da locução e do canto. “Essas técnicas estão todas engendradas na construção do trabalho autoral – um trabalho da ideia de ator-compositor, ou desse ator que exerce fundamentalmente a escuta, de si, dos outros, da obra”, diz e acrescenta:

A colcha de retalhos, como método, e o encontro com este esmero da palavra, que se deu no encontro com estes autores de obras de impacto universal, deu vazão à imaginação deste todo da dramaturgia que encerra a representação coletiva do “Bicharada: na saga do som”.

A dimensão dos arquétipos na criação dos tipos animais, tem sido visitada. Afirma Guto Martins que o grupo partiu de um trabalho com a coordenadora do Núcleo de Arte&Comunidade (ESAT/UEA), Amanda Ayres, com os tipos arquetípicos de um tarôt de representação totêmica dos animais. “Através da leitura de cartas com figuras e arquétipos animais que formam uma linhagem de informações que vão de encontro aos animais como figuras ou entidades de poder”, informa Guto Martins.  

“Também nos aproximamos da noção de agenciamento dos animais como animais-gente, tal qual o processo é descrito nas referências às culturas ameríndias. Assim, a onça-gente, o tracajá-gente, o urubu-gente, a samaúma-gente, as formigas-gente, fazem ver uma compreensão-gente que nos contrapõe a essa multi-possibilidade de focos, de entender a presença do ser humano-bicho. Eu acho que é nesse agenciamento arquetípico que a gente está desenvolvendo a dramaturgia e o trabalho como um todo”.

Segundo o diretor, a dublagem dos atores é feita ao vivo.  Da mesma forma, a sonoplastia é transmitida, também em tempo real, ao vivo, e tem dialogado com a utilização de animações. “Essas animações são partes operantes do sistema youtube, que tem uma camada sonora e visual. As animações e video-clips trazem o cenário da floresta para este lugar da relação floresta-bicho-gente.

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