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Garrafa peruana de refrigerante de 2016 é encontrada em área de preservação no AM, e pesquisa alerta para taxas de poluição

Garrafa encontrada em área de preservação era de edição de Natal de 2016, produzida no Peru — Foto: Divulgação/Instituto Mamirauá
Garrafa encontrada em área de preservação era de edição de Natal de 2016, produzida no Peru — Foto: Divulgação/Instituto Mamirauá

Garrafa encontrada em área de preservação era de edição de Natal de 2016, produzida no Peru — Foto: Divulgação/Instituto Mamirauá

Na região do Médio Solimões, na Amazônia Central, pesquisadores de campo encontraram uma garrafa de refrigerante peruana da edição especial de natal de 2016. Este e e outros resíduos são analisados em um complexo estudo de biólogos do Instituto Mamirauá que busca identificar e classificar resíduos sólidos encontrados em florestas de várzea do ecossistema amazônico.

O coorientador do projeto e pesquisador do Grupo de Pesquisa em Ecologia Florestal do Instituto, Elias Neto, o grupo de ecologia florestal costuma monitorar a região para entender como é a dinâmica florestal da região alagável, conhecida pela dinâmica de cheias e secas. A pesquisa faz parte do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC)

“Em uma dessas visitas, percebemos que estava bem visível a quantidade de resíduos. Tivemos, então, a ideia de começar a estudar e analisar esses resíduos que chegam na floresta. A ideia surgiu no ano passado, desenvolvemos o projeto, submetemos ao programa de Iniciação científica, mas só em novembro desse ano que voltamos para coletar os resíduos e fazer as análises. Classificar o material, ver qual tipo que era, quanto pesava”, explicou.

A pesquisa foi conduzida pela estudante de Ciências Biológicas da Universidade Estadual do Amazonas (UEA), Zeneide Silva. Resíduos foram coletados em cinco áreas, de um hectare cada, definidas previamente. Nessa área são realizadas pesquisas do Grupo de Pesquisa de Ecologia Florestal. As áreas de amostragem estão localizadas na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, unidade de conservação da região de várzea.

Entre os dias 11 e 13 de novembro, 2,5 hectares foram “cobertos” pela coleta. Para o campo, os pesquisadores aproveitaram a mesma logística do grupo de pesquisa, que realiza medições anuais nas parcelas. “Depois da coleta, pesamos, classificamos e quantificamos as amostras. Com isso, conseguiremos estimar uma média e entender os tipos de resíduos que existem em cada área”, informou Neto.

600 gramas de lixo por hectare

Uma média de 600 g de resíduos sólidos por hectare para esse tipo de floresta de várzea foi encontrada durante a pesquisa. A quantidade é equivalente a 60% da produção diária de lixo por pessoa no Brasil, segundo o Instituto Mamirauá.

84% dos resíduos coletados durante a pesquisa foram materiais feitos de plástico.  — Foto: Divulgação/Instituto Mamirauá
84% dos resíduos coletados durante a pesquisa foram materiais feitos de plástico.  — Foto: Divulgação/Instituto Mamirauá

84% dos resíduos coletados durante a pesquisa foram materiais feitos de plástico. — Foto: Divulgação/Instituto Mamirauá

O número, de acordo com Elias, pode ser considerado alto. “Apesar de não termos outras pesquisas como parâmetro, encontramos uma média de 15 itens de resíduos por hectare – o que eu considero muita coisa”, disse.

Um dos resíduos coletados chamou a atenção dos pesquisadores. Uma garrafa de refrigerante. Segundo Neto, eles usavam leitores de códigos de barra para saberem os produtos que estavam ali. Ao escanearem a garrafa, descobriram que era de uma marca de refrigerante da edição especial de natal de 2016 do Peru.

“Nós não esperávamos encontrar toda essa quantidade de resíduos, muito menos um que é produzido em outro país. Quando encontramos essa garrafa de refrigerante e vimos que era do Peru, nos levou a diversos questionamentos”, avalia a pesquisadora Zeneide Silva.

“Como que um resíduo produzido em outro país veio parar no meio da floresta amazônica? E em uma área que é protegida? Será que veio através da dinâmica do rio ou por meio de descarte inadequado de algum barco que usa esse trajeto da reserva?”

Plástico é maioria

Segundo Zeneide, os itens encontrados foram variados, como escovas, embalagens de produtos cosméticos, bacias, sandálias, copos, pedaços de brinquedos, copos, utensílios domésticos e, principalmente, garrafas pet.

“Através das análises desses primeiros dados, nós já identificamos que a maioria da composição dos resíduos coletados se dividiu entre 84% de plástico, 8% de borracha e 8% de isopor”, informou a pesquisadora.

Risco de intoxicação

Durante a expedição, também foram coletadas amostras de solo, que estão em fase de análise. O objetivo, segundo ela, é identificar se há a presença de microplásticos no solo da região, um resíduo de plástico em um nível de degradação mais alto.

“A presença de resíduos desse tipo pode representar para a natureza uma ameaça a biodiversidade tanto para a fauna local, como também para a floresta. Eles podem ser engolidos por animais aquáticos, levando à morte desses indivíduos. Eles também ocupam um lugar no solo onde, provavelmente, ocorreria o nascimento de uma árvore, interferindo na regeneração da floresta”, comentou.

Conforme Neto, o estudo, que finaliza em julho do ano que vem, deve abrir portas para novas pesquisas sobre a temática na região. “Se a gente encontrar na floresta amazônica, um dos lugares mais remotos da Terra, quem garante que não pode ser encontrado em qualquer outro lugar?”, questionou o pesquisador.

Futuro da pesquisa

Após o trabalho que já foi feito, os pesquisadores desejam ampliar a área de amostra para entender melhor a dimensão do problema de poluição por resíduos sólidos na floresta amazônica. Para isso, entretanto, necessitam de financiamento, já que os custos com logística e análises são altos.

“Agora, a Zeneide vai escrever um relatório, vamos começar a escrever um artigo também, para podermos submeter a pesquisa a uma revista científica. A análise do solo para saber se há a presença de microplásticos também ainda deve acontecer, pois é preciso de um equipamento necessário. Para isso, estamos atrás de financiamento para que consigamos desenvolver mais a pesquisa”, finalizou Neto.

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