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Falta de pessoal e de vontade política atrapalham controle de queimadas

MANAUS – O monitoramento por satélite é um recurso para identificar e combater incêndios, mas a falta de mão de obra e de determinação política atrapalham o controle das queimadas e do desmatamento na Amazônia, afirma o engenheiro ambiental Alberto W. Setzer.

Com o físico e meteorologista Nelson Jesuz Ferreira, Setzer lançou o livro “Queimadas e incêndios florestais mediante monitoramento orbital”. A obra tem colaboração de outros pesquisadores do Programa de Queimadas do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais).

Em entrevista à Oficina de Textos, editora responsável pelo lançamento, Setzer afirmou que há meios para controlar os crimes ambientais na área de queimadas e desmatamento.

“A informação está toda disponível. Temos toda a técnica, todas as ferramentas para saber quem, como, onde e quando está fazendo a coisa errada. Os satélites detectam mais de 300 mil infrações por ano do uso ilegal do fogo e apenas uma fração mínima desses casos é verificada justamente pela falta de mão de obra e de determinação política”, afirmou.

O livro mostra como é feito o monitoramento das queimadas e o que é realmente detectado; aponta as dificuldades dos interessados em fazer uso dos dados de satélites na detecção de fogo na vegetação; explica como se faz a estimativa de áreas queimadas e o cálculo do risco de fogo.

Um capítulo é dedicado Acre, em que o uso de dados de satélites foi importante para a adoção de políticas públicas no estado. Setzer lembra que a questão das queimadas na Amazônia adquiriu enorme relevância, tanto no meio técnico, quanto no político. “Entendemos que o livro é a forma mais adequada para relatar e documentar o que temos feito, abrindo essa experiência para especialistas e para o público em geral”, disse.

Monitoramento orbital

Setzer afirma que o monitoramento orbital é fundamental para um país como o Brasil, que tem dimensões continentais e uma população não muito preocupada com as questões ambientais. Nos países na Europa, basta aparecer uma “fumacinha” em qualquer lugar para que imediatamente os bombeiros, a polícia e outros órgãos sejam acionados para tomar providências. O detalhe, segundo o pesquisador, é que lá os transgressores das leis ambientais são punidos de forma exemplar.

“Aqui no Brasil é o oposto disso. As pessoas veem contravenções e desastres ambientais como se fossem coisas naturais. Pouca gente reporta e relata esses eventos. As autoridades, por seu lado, que deveriam tomar providências, muitas vezes não têm informações de onde os crimes ambientais estão ocorrendo”.

Setzer cita que o primeiro satélite de observações terrestres se chamava ERTS e foi lançado em 1972 pela Nasa, Agência Espacial dos Estados Unidos. “De lá para cá, sabemos quem, quando e onde um crime está sendo cometido, seja de desmatamento ou de queimada. Ao longo desses cinquenta anos, a tendência de aumento de desmatamento e de queimadas, em particular na Amazônia, continua se verificando.” 

Futuro das florestas
Querimada na Amazônia: dados disponíveis para o público (Foto: Paulo Brando/Ipam)
Alberto Setzer não é otimista quanto ao futuro das florestas (Foto: Paulo Brando/Ipam)

Levando em conta uma experiência de quatro décadas e o acesso a dados diários de satélites, Alberto Setzer não é otimista quanto ao futuro das florestas.  

“O que a gente vê é uma continuidade no aumento do desmatamento não só no Brasil, mas no mundo todo. As florestas certamente passarão do ponto de inflexão [do momento de não-retorno]. Muitas pessoas acham que já atingimos esse ponto de inflexão, mas na minha percepção isso é até um pouco irrelevante. Se você já atingiu há alguns anos, se está atingindo agora ou se você vai atingir no ano que vem não muda o contexto da continuidade dos crimes ambientais, nem realmente uma interrupção desse processo”. 

O lado positivo, segundo ele, é que a comunidade científica, uma parte dos gestores públicos e muitos empresários estão mais atentos ao tema ambiental e às florestas. Esse interesse pelas queimadas no Brasil começou no final da década de 1980 e vem crescendo cada vez mais, afirma o pesquisador. “Isso a gente percebe não só pela quantidade de matérias na mídia, mas pelo número de trabalhos científicos feitos por pesquisadores brasileiros abordando esse tema de queimadas.”

Isso continua aumentando, diz o engenheiro, porém sempre por meio de artigos em revistas técnicas ou científicas. “Até agora não havia nenhum livro especificamente sobre as queimadas no Brasil. Essa obra pode servir como um estopim para que outros livros sejam publicados, levando em conta a importância do tema e a quantidade enorme de pesquisas produzidas por nossos cientistas e técnicos”, concluiu o pesquisador. 

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