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De origem quilombola e umbandista, Negão do Bope não tinha medo do amanhã

Nem sempre ele foi o “Negão do Bope”. Mas o policial militar Luiz Paulo Costa combatia o racismo com autoestima.

Em fevereiro deste ano, foi assassinado, aos 39 anos, em um crime ainda não desvendado. Recentemente, foi inserido na lista de personalidades negras da Fundação Cultural Palmares.

Homenageado enquanto a fundação excluiu outras personalidades negras, como Gilberto Gil e Elza Soares, Costa foi usado por Sergio Camargo, presidente da entidade, como exemplo da suposta seletividade de movimentos de direitos humanos.

Mas ele era mais do que policial. Foi sacerdote do templo de umbanda gerido pela família, descendente de quilombolas da região dos lagos no Rio e, com seu 1,88 m de altura, desfilou em um espaço cultural.

Nascido em São João de Meriti, na Baixada Fluminense, era filho de uma manicure e um marceneiro. Separada, Elizabeth Cristina da Costa, hoje com 64 anos, criou sozinha os cinco filhos, três homens e duas mulheres. Eles se mudaram para Iguaba Grande quando Costa tinha cinco anos.

Para ela, a homenagem é justa e motivo de orgulho: “O nome dele está no mesmo lugar onde está o do cantor Wilson Simonal” [1938-2000].

Irmão mais velho do PM, Juarez Costa, 49, conta que Costa era uma pessoa religiosa. Com ele e a mãe, fundou o Centro Espírita de Caridade Casa Inhasã de Umbanda. “Meu irmão tinha um alto cargo sacerdotal.”

Paula Martins, 26, companheira de Costa, diz que ele acreditava que tinha o corpo fechado, por isso era destemido em ações perigosas. “Não tinha medo de morrer”, diz. Para o irmão, a razão da coragem era outra. “Ele simplesmente fazia o que era preciso, não temia o amanhã.”

Colegas policiais contam terem presenciado o amigo ser chamado de macaco por bandidos e familiares de marginais diversas vezes, mas ele não dava ouvidos aos insultos.

Reservado com estranhos, mas extrovertido e brincalhão com os íntimos, o “Negão do Bope” deixou quatro filhos —de 18, 6, 5 anos e um bebê de 7 meses. Ele não chegou a conhecer este último. Paula estava grávida quando Costa foi morto.

Eles se casariam em dezembro e já tinham pagado o ensaio fotográfico de gestante. Paula acabou fazendo as fotos sozinha, mas fez questão de inserir uma imagem de Costa. Ela conta que ele adorava conversar com o filho em sua barriga.

Dói muito saber que meu filho não vai conhecer o pai. Ele escolheu o nome do nosso bebê e o chamava de Pedrão. Converso com meu filho sobre o pai dele. Estou guardando tudo o que sai na mídia sobre o Luiz em uma pasta. Quero mostrá-la ao nosso filho algum dia.

Paula Martins, companheira de Luiz Paulo Costa

Luiz Paulo Costa, o ‘Negão do Bope’, morreu antes do ensaio fotográfico de gestante de sua companheira, Paula Martins, mas ela incluiu sua imagem em uma das fotos

Entre 2006 e 2015, virou o “Negão do Bope”. Mas teve de suar para entrar na PM. Trabalhou na construção civil para juntar dinheiro e pagar um curso preparatório.

“Ele foi trabalhar de pedreiro. Me dava todo o dinheiro que ganhava e pedia para eu guardar. Falava assim: ‘Mãe, tira só o que eu preciso para comida e a passagem’”, conta Elizabeth Cristina.

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